Tribos urbanas tentam ressuscitar Imaviz
Tribos urbanas tentam ressuscitar Imaviz

As camadas de papel de parede podem revelar mais que a simples acumulação de padrões gastos. Às vezes, são um mostruário de memórias, de modas, de nomes associados a uma era. “Quando começámos a fazer limpezas e a arrumar isto, decobrimos nesta parede um cartaz da Isabel Queiroz do Vale”, conta Emanuel Lameiras, 37 anos, sorriso a evidenciar consciência do simbolismo do nome da mais famosa rede de cabeleireiros dos anos 80. E a convicção de se poder insuflar vida nova no que está moribundo. As lojas e o corredor do piso inferior do Centro Comercial Imaviz, em Picoas, são por estes dias palco de actividade e energia próprias do que cheira a novidade. Um conjunto de comerciantes e empresários do que, visto de fora e à falta de melhor expressão, se pode apelidar de “culturas urbanas alternativas” prepara-se para ressuscitar um espaço morto no centro da cidade.
Um dos primeiros centros comerciais de Lisboa, inaugurado na década de 1970, o Imaviz há muito que viu desvanecerem-se-lhe o brilho e a vitalidade. A grande maioria das lojas já fechou portas e os anos mais recentes têm sido sinónimo de existência penosa. Há muito que deixou de ser um ponto de referência. O espaço vazio das lojas e o silêncio dos desolados corredores contrastam com o bulício urbano no exterior, sobretudo da circulação automóvel na Avenida Fontes Pereira de Melo. Mas há quem não veja o lugar como acabado, antes preferindo imaginar-lhe novos capítulos. A primeira semana de setembro deverá marcar o começo de uma nova fase na sua existência, com a entrada em pleno funcionamento de um núcleo de lojas ligadas às sub-culturas urbanas. Entre entre elas a Clockwork, especializada em streetwear, moda underground e tatuagens e cuja actividade foi iniciada por Emanuel, em Almada, há 19 anos. “Julgo que isto tem tudo para correr bem, até poder ser um balão de oxigénio para o centro”, diz.
Quando o Corvo visitou o Imaviz, na semana passada, apenas estavam instaladas a Clockwork, com duas lojas, uma de roupa, acessórios e CD’s, e outra de tatuagens, e a Mongorhead, especializada em comics, merchadising e bonecos das franjas da cultura de massas, sobretudo produtos norte-americanos. Os novos estabelecimentos concentram-se no piso inferior da galeria comercial e terão como elo esse apego a tudo o que fuja ao mais óbvio e, ao mesmo tempo, seja a expressão de uma certa identidade da juventude citadina – aquilo a que comumente se apelida de tribos urbanas. A estas duas juntar-se-ão ainda uma loja de instrumentos musicais de corda; uma loja de roupa vintage; uma loja de discos de rock (sobretudo nas suas vertentes mais marginais), a Glam-o-rama; e uma galeria para exposições de fotografia. Haverá ainda um pequeno espaço com palco para actuações musicais.
Algumas lojas estavam espalhadas pela cidade e, tendo um espírito comum, os seus donos acharam que, se juntassem, só tinham a ganhar. “Tomamos isto um bocado de assalto. Sendo um local central e com o metro a sair à nossa porta, é perfeito”, diz Tiago Sério, 40 anos, dono da Mongorhead, que ali encontrou novo lugar para vender os seus comics e “action figures”. Foi a primeira loja a abrir, a meio de Agosto, depois de um período de férias que serviu para fazer a mudança da Rua do Crucifixo para ali. Tiago, que tem este negócio desde os 19 anos e já passou por diversos pontos da cidade, abandonou a Baixa por achar que “se tornou um local de passagem de turistas, sem vida, ao qual as pessoas não vão”. Tanto ele, como Emanuel, que é seu amigo, comunga da ideia de que a zona onde agora se instalam “acaba por ser mais central do que a Baixa”.
Tiago ouve com algum cepticismo o discurso de que, nos últimos anos, existe uma mudança de atitude das pessoas em relação à vida urbana e muitas se estarão a mudar para o centro. “Muitos dos que dizem isso continuam a ir para os centros comerciais da periferia. Mas o que interessa é colocar as cidades vivas, porque o centro, como aqui, continua desabitado. Basta olhar para as ruas, que estão vazias, sem gente”, diz o empresário e também baterista da banda Capitão Fantasma, notando que a Baixa vive sobretudo dos turistas. “Todas as pessoas que aqui estão fazem-no contracorrente”, afirma. No fundo, Tiago acha que o futuro da cidade passa também por zonas, como Picoas e o Saldanha, que já tiveram melhores dias, mas não estão na moda.
A seu favor, aquela área tem o facto de ser central e um ponto de passagem de muita gente, durante a semana. Cruzam-se ali duas linhas de metro, a amarela e a vermelha. Os novos inquilinos do Imaviz vêem aí vantagens e esperam voltar a dar vida ao que pode ser visto como um exemplar arqueológico dos centros comerciais portugueses. Concertaram uma estratégia e conseguiram negociar em bloco rendas favoráveis com a administração do centro comercial. “Conseguimos juntar lojas díspares, mas que se complementam”, diz Tiago. E esperam atrair mais gente para este novo pólo. “Vir para aqui é uma excelente oportunidade para as pessoas que querem abrir negócios diferentes”, afirma Emanuel. Ele sorri quando se lhe acena com a palavra crise. Afinal, sempre ouviu falar dela. “As coisas nunca foram fáceis, tenho consciência de que nunca serei rico, por fazer o que gosto”.
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