Quem é Raul Castro?
06-09-2013 09:47
Quem é Raul Castro?
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| Fidel pode ter concebido o terror responsável por manter Cuba presa no curral do comunismo, mas Raul tem sido o açougueiro. |
Quem é Raul Castro? O pensamento dos especialistas ocidentais de que ele pode levar Cuba a um governo de consenso e à democracia não passa de pensamento mágico. Eu certamente gostaria que eles estivessem certos, mas Raul Castro transformou um paraíso terrestre em ruínas, e há boas razões para crer que ele transformará Cuba numa ditadura pior do que já é.
Eu encontrei-me com Raul Castro muitas vezes, em Cuba e na Roménia. Ele era responsável pela coordenação do serviço de inteligência cubano (a Dirección General de Inteligencia – DGI) e, no início dos anos 1970, entrou no negócio de drogas juntamente com o departamento onde eu trabalhava (Departamentul de Informatii Externe – DIE). Quando ele não estava em Havana ou Moscovo, estava em Bucareste. Nós trabalhámos, conversámos, pescámos e mergulhámos juntos. Disputámos quem era melhor no tiro ao alvo; ele era um excelente atirador. Juntos, corremos nos nossos idênticos carros Alfa Romeo. Não vi nada nele que indique que queira democratizar Cuba.
Raul Castro estava sempre sob a influência do álcool e da auto-idolatria. O meu contacto na inteligência cubana na época, Sergio del Valle, era o companheiro mais próximo de Raul Castro; voltando aos primeiros tempos na Sierra Maestra, costumava chamar o seu chefe de “Raul, O Terrível” em alusão ao primeiro russo auto-coroado czar. Raul Castro era o czar não coroado de Cuba – o seu título oficial era “General Máximo”. Fidel discursava, hora após hora. Raul conduzia a economia de Cuba, a sua política externa, o comércio exterior, o sistema judiciário, as cadeias, o turismo – até mesmo os hotéis e as praias.
Raul Castro é geralmente conhecido como um apagado ministro de defesa, mas ele também tem sido o comandante brutal de uma das mais criminosas instituições comunistas: a polícia política cubana. Eu testemunhei a sua capacidade. Ele era cruel e implacável. Fidel pode ter concebido o terror responsável por manter Cuba presa no curral do comunismo, mas Raul tem sido o açougueiro. Ele tem colaborado na matança e no terror de milhares de cubanos, e não tenho dúvidas de que lutará com unhas e dentes para preservar o poder. Por outro lado, mais cedo ou mais tarde Raul Castro deverá pagar pelos seus crimes, e eu não creio que ele seja um suicida.
Antes de conhecer Raul Castro pessoalmente, tive uma primeira impressão dele por meio de Nikita Khrushchev e do general Aleksandr Sakharovsky, o criador da estrutura da inteligência comunista romena, e naquele tempo comandante do serviço de inteligência soviético para o exterior, o PGU (Pervoye Glavnoye Upravleniye). Isto foi em 1959. Ambos haviam chegado em Bucareste no dia 26 de Outubro para o decretado “feriado de seis dias na Romênia”. Jamais Khrushchev havia tirado férias tão longas no exterior, mas a sua visita à Roménia também não era descanso. Estava lá para discutir a revolução cubana em andamento com o líder romeno Gheorghe Gheorghiu-Dej, até então o único ditador comunista de um país de herança latina.
Khrushchev sonhava em entrar para a história como o líder soviético instaurador do comunismo no continente americano e estava disposto a qualquer coisa para concretizar o seu sonho. Mas Khrushchev não confiava em Fidel Castro porque via nele uma pessoa estranha ao marxismo. Para os líderes do partido comunista cubano, Fidel era um aventureiro perigoso, e os burocratas do partido soviético também estavam relutantes em apoiá-lo.
Khrushchev, por sua vez, confiava em Raul Castro. De acordo com Sakharovsky, responsável por conduzir Raul Castro a Moscovo em meados da década de 1950, foi amor à primeira vista. Nikita e Raul adoravam vodka, ambos eram fascinados pelo marxismo, odiavam escola, religião e disciplina. Ambos se consideravam especialistas militares. Ambos eram obcecados por espionagem e contra-espionagem. E ambos gostavam de dormir de botas. Sakharovsky acreditava que o “terno relacionamento” entre os dois havia levado Khrushchev a se atirar de corpo e alma na revolução cubana.
Por ordem de Khrushchev, Sakharovsky deu a Raul Castro um conselheiro de inteligência: Nikolay Leonov, o melhor especialista do PGU na América Latina. Leonov (hoje um general da KGB aposentado e membro da Duma) forneceu a Raul Castro informações sobre as forças militares do então ditador cubano, Batista, e o ajudou a planear a guerrilha. Em Junho de 1957, Leonov deu a ele documentos e fotografias mostrando o fornecimento de armas e apoio logístico de Washington a Batista, e sugeriu fazer alguns americanos reféns para forçar Eisenhower a retirar-se do conflito. Raul Castro seguiu o conselho. Em 26 de Junho de 1958, os seus guerrilheiros sequestraram quinze militares e civis americanos e canadenses que estavam a trabalho em Cuba. Temendo pela vida dos reféns, Batista decretou um cessar-fogo. A manobra permitiu aos soviéticos levar novas armas a Cuba.
O curso da revolução cubana mudou para sempre. E a era do sequestro político havia sido inaugurada.
Na noite do dia 31 de Dezembro de 1958, Batista fugiu de Cuba, e os irmãos Castro tomaram conta do país. Durante o mês seguinte, Raul Castro organizou a execução de centenas de policiais e militares do regime de Batista. Os prisioneiros eram mortos a tiro e os corpos enterrados em túmulos colectivos nos arredores de Santiago de Cuba.
Um ano depois, o representante do primeiro-ministro soviético Anastas Mikoyan foi a Havana. Ele foi recebido por Fidel, Raul e pelo novo conselheiro da KGB para o país, Aleksandr Shitov. A tarefa naquele momento era ajudar Raul Castro a criar uma KGB cubana e um exército ao estilo soviético. Em 1962, Khrushchev tomou uma decisão sem precedentes ao nomear Shitov embaixador soviético em Cuba. Em segredo, Moscovo logo começou a construir bases de mísseis em território cubano.
Khrushchev, Raul Castro e Shitov – não Fidel – empurraram o mundo para a iminência da guerra nuclear.
Em Abril de 1971 eu visitei Cuba como membro de uma delegação do governo romeno para a celebração de dez anos pela vitória de Fidel Castro na Baía dos Porcos. Alguns dias depois da cerimónia, Raul Castro convidou-me para ir pescar no mar no seu barco, junto com Sergio del Valle. O outro convidado era um civil soviético que se apresentou como Aleksandr Alekseyev. “Aquele é Shitov”, sussurrou del Valle. “Agora, ele é conselheiro de Allende”. (O marxista Salvador Allende havia sido eleito presidente do Chile no mês de Novembro do ano anterior.) Lá, no barco, ficou claro para mim – mais claro do que nunca – que era Raul, não Fidel, quem empunhava as rédeas da diligência da revolução cubana.
Em 1972 eu preparei uma visita oficial de Ceausescu a Havana, e, durante esta, também fui o seu braço direito. Fidel era o testa de ferro, Raul o ajudante geral. A primeira dama cubana não era a esposa de Fidel, mas a de Raul. Elena Ceausescu empinou o nariz para ela, mas, no momento certo, as duas primeiras damas entenderam-se esplendidamente. Tanto Elena quanto Vilma Espin Guilloys haviam abandonado os estudos, ambas fingiam ser químicas, ambas haviam obtido títulos de doutorado falsos, ambas eram do partido comunista antes dele ter chegado ao poder nos seus países, ambas se tornaram membros do Conselho de Estado e ambas eram presidentes das organizações de Federação de Mulheres nos seus países.
Durante a visita, os irmãos Castro e Ceausescu lançaram as bases para um negócio de drogas conjunto. Queriam afundar o mundo com drogas. “As drogas podem causar mais danos ao imperialismo do que armas nucleares”, pontificou Fidel. “As drogas erodirão o capitalismo por dentro”, concordou Raul. Jamais ouvi a palavra “dinheiro” ser pronunciada, mas eu já estava administrando o dinheiro que a Roménia estava fazendo com o seu próprio tráfico de drogas. Ia tudo para a conta bancária pessoal de Ceausescu. Em 1978, quando deixei a Romênia para sempre, aquela conta, chamada de AT-78, tinha um saldo de cerca de 400 milhões de dólares – a despeito dos desfalques substanciais feitos por Elena para comprar peles e jóias.
Em 2005, Fidel ficou furioso quando a Forbes Magazine estimou a sua fortuna em 500 milhões de dólares. Neste ano, a revista actualizou o valor para 900 milhões. Em vista da penúria cubana, esta quantia é certamente mais do que o suficiente para Raul subornar os seus camaradas políticos e comprar todos os novos aliados de que precisar.
Em 1973 eu tirei “férias de trabalho” em Havana. Raul levou-me para conhecer uma instalação gigantesca, dedicada ao fabrico de maletas com fundo falso e outros dispositivos para o transporte secreto de armas e explosivos para fins terroristas. Na época, o DGI de Raul Castro estava trabalhando em tempo integral para expandir a influência política de Cuba pela América do Sul e pelo Terceiro Mundo. Particularmente, lutavam para consolidar o poder dos Sandinistas na Nicarágua, para fomentar uma guerra sangrenta em El Salvador e para ajudar o MPLA (Movimento pela Libertação de Angola), movimento financiado por Cuba e União Soviética, com o objectivo de aumentar o poder deles em Angola. O DGI de Raul Castro e as suas forças armadas também tinham conselheiros e instrutores nas bases da Organização para a Libertação da Palestina e haviam estabelecido estreita colaboração com a Líbia, Iêmen do Sul e com a Frente Polisário para a Libertação do Saara Ocidental. Em meados dos anos 1970, o DIE – o meu departamento – operava juntamente com o DGI de Raul Castro para apoiar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), uma organização insurgente marxista anti-americana cuja missão era espalhar o comunismo pela América do Sul.
Em dezembro de 1974, Raul foi a Bucareste pedir apoio político e de inteligência para o seu novo DNL (National Liberation Directorate), grupo de inteligência/partido, cujo objectivo era coordenar a guerrilha cubana e os campos de treino de terrorismo e fomentar o surgimento de movimentos de libertação nacionais e de governos anti-americanos como os da Nicarágua e Granada. Conseguiu ambos.
É claro que eu não tenho mais acesso a informações internas sobre a exportação do terrorismo e da revolução de Raul Castro, mas vi, em 2001, as suas FARC responsabilizarem-se por 197 assassinatos na Colômbia. Em 11 de Abril de 2002, as mesmas FARC sequestraram 13 legisladores colombianos de um edifício governamental em Cali e mantiveram a candidata a presidente Ingrid Betancourt em cativeiro. Em 13 de Fevereiro de 2003, as FARC abateram um jacto da CIA transportando equipamento electrónico de inteligência no sul da Colômbia, fazendo reféns três oficiais da CIA. Agora, as FARC de Raul Castro estão procurando derrubar o governo pró-americano do presidente colombiano Álvaro Uribe, cujo pai foi assassinado pelas FARC em 1983. Também percebi que o presidente comunista da Venezuela, Hugo Chavez, adorador dos irmãos Castro, ameaçou parar de exportar petróleo para os EUA e pretende iniciar uma guerra convencional contra a sua vizinha Colômbia, a maior aliada dos EUA na região.
Ninguém, em Cuba e fora dela, sabe examente qual o estado de saúde – física ou política – de Fidel. Por lá talvez esteja acontecendo algo que Raul Castro aprendeu com os seus mestres da KGB. Leonid Brezhnev morreu no dia 10 de novembro de 1982, mas o chefe da KGB, Yury Andropov, conseguiu manter a morte oculta da população durante alguns dias e assim ganhou tempo para manobrar e se instalar no assento do condutor. Uma vez empossado no Kremlin, o cínico Andropov apressou-se em exibir uma imagem para o Ocidente de comunista “moderado”, um homem sensível, cordial, voltado para o Ocidente, apreciador de um drinque de scotch de vez em quando, leitor de romances ingleses e ouvinte de jazz americano e da música de Beethoven. Ele não era nada disso.
Raul também pode tentar apresentar-se como um afectuoso anjo de paz. Mas a era de segredo de Andropov já se foi. Rezo para que as pessoas que conhecem Raul Castro tão bem como eu conhecia Ceausescu, venham a público despir o ditador cubano, permitindo ao mundo vê-lo nu, como verdadeiramente é: um assassino e terrorista internacional que fez fortuna com a venda ilegal de armas, drogas e seres humanos.
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